v. 2 n. 2 (2008)
Sobre este número
Carta do Editor Chefe

Bem-vindos ao terceiro número da Revista Globalização, Competitividade e Governabilidade da Região Ibero-americana!

Desde o último número, ocorreram factos que voltaram a demonstrar a crescente interligação entre as diferentes regiões geográficas do mundo.

Observámos com preocupação o aumento do custo dos alimentos, motivado por muitos factores: o aumento do preço da energia e dos fertilizantes, o incremento da procura dos biocombustíveis, a rotura entre a oferta e a procura, a queda da produtividade. De acordo com os números do Banco Inter-Americano de Desenvolvimento, o crescimento da procura de energia na América Latina e Caraíbas poderá atingir os 76% até ao ano 2030. Os especialistas sugerem que o investimento necessário para satisfazer essa procura seja de 1.600 milhões de dólares. Por outro lado, a geração de energia deverá aumentar em 145%. Assim, no México, por exemplo, a procura de electricidade irá crescer a um ritmo anual aproximado de 6% até 2013, requerendo um investimento de 5.500 milhões de dólares por ano, para ampliar a capacidade de produção de electricidade.

Quanto aos 16 países da região importadores líquidos de petróleo, o aumento de preços dos hidrocarbonetos representa um desafio adicional: afecta não apenas as economias locais e os custos de produção, como enfraquece a competitividade. Paralelamente, os produtores apresentam uma redução na produtividade nos seus depósitos de hidrocarbonetos, correndo assim o risco de se transformarem em consumidores. Por outro lado, a desaceleração da economia norte-americana teve sérias repercussões não apenas na América Latina, especialmente no que respeita às exportações, mas em todo o mundo. Neste sentido, não devemos esquecer que a balança comercial dos Estados Unidos é deficitária, pois continua a ser o principal importador a nível mundial.

Noutra ordem de ideias, a disputa eleitoral norte-americana apresenta uma oportunidade única para especular sobre possíveis alterações na política para a região. Com efeito, a relação entre os Estados Unidos e a América Latina foi mencionada em diversas ocasiões nos discursos dos candidatos e o tema é objecto de consideração por parte das suas equipas e assessores em política externa. No quadro de uma relação entre o próximo governo e a região, ainda estão por definir certos temas importantes, entre outros: alguns Tratados de Comércio Livre, a exigência de um lugar fixo no Conselho de Segurança das Nações Unidas para os países latino-americanos, e o rumo que a reforma migratória irá tomar.

Neste cenário mundial, aparece o terceiro número da nossa revista. Conta com oito artigos muito diversos. No de Esteban García Canal, Mauro Guillén, Pablo Sánchez Lorda e Ana Valdés Llanesa, é rigorosamente analisada a evolução da expansão internacional das empresas espanholas para a América Latina. O exame é fundamentado numa base sistemática de dados – promovida pelo Instituto Espanhol de Comércio Externo (ICEX) – que conta com informação dispersa a nível de empresa e um amplo alcance temporal (1986-2007). São examinadas as pautas temporais, sectoriais, geográficas, consoante o tipo e o objectivo da operação, e em função da participação de sócios ou colaboradores. O estudo demonstra que esta região não deixou de ser atractiva para as empresas espanholas. Além disso, os autores demonstram que não só foram à América Latina as grandes empresas que competem nos sectores regulados, como também o grupo de empresas com actividades nessa área é mais heterogéneo do que parece.

No segundo artigo, Martin Mullins, Finbarr Murphy e John F. Garvey avaliam a relação entre o Estado nas economias emergentes (caso particular do Brasil) e os mercados financeiros. Sustentam que o acesso a um mercado financeiro mais dinâmico reduz o risco político do país, uma vez que minimiza a probabilidade de crise nesse sector. Na América Latina, os sistemas financeiros sofrem de um elevado grau de vulnerabilidade. A dívida é considerada um elemento político, onde a porosidade entre a política e os mercados devedores preocupa os investidores. Os autores argumentam que a utilização dos instrumentos financeiros desempenha um papel importante na redução da volatilidade dos mercados. Referem-se particularmente ao denominado Credit Default Swap, destinado a limitar o risco de crédito do investidor. Os resultados são validados observando a volatilidade e o rendimento das obrigações do Governo Brasileiro entre 1997 e 2008.

No seu artigo, Martin Lardone estuda o papel do Banco Mundial na reforma estatal, tanto na Argentina como no Chile. De acordo com este artigo, a intervenção desta instituição compreende empréstimos destinados a reformas da administração pública e estratégias de país, formuladas a partir dos anos 90. Um argumento central deste trabalho é que a «apropriação» das reformas não depende apenas da vontade das autoridades governamentais de tomar algumas decisões de política pública. Intervêm igualmente outras variáveis, tais como: a situação fiscal e financeira do Estado, a estrutura do Estado no sentido burocrático e as relações entre o aparelho do Estado e outros protagonistas. Finalmente, o êxito do apoio do Banco Mundial aos países é articulado em torno da implementação das reformas institucionais e a sustentabilidade das mesmas a longo prazo.

Quanto a José de la Torre, examina a evolução, as características e os desafios do sistema de governação corporativa na América Latina. Sustenta que a globalização e os processos de liberalização e privatização das economias latino-americanas nos anos 90 provocaram impacto no cenário em que as empresas da região se desenvolviam. Assim, tendo iniciado as suas actividades de forma isolada face às empresas estabelecidas nos países vizinhos, viram-se obrigadas a adaptarem-se às políticas de integração de mercados regionais e globais. Para tal, empreenderam processos de transformação determinantes para o seu futuro no que respeita à propriedade, governabilidade corporativa e estruturas organizacionais. Neste estudo, compara estes processos evolutivos em empresas multinacionais e em multilatinas. Conclui que as multilatinas devem incrementar o seu investimento no desenvolvimento administrativo para manter a competitividade e responder com êxito aos desafios da globalização.

Em «Silent Revolution: An Early Export from Pinochet’s Chile» [Revolução silenciosa: uma exportação precoce do Chile de Pinochet], Felipe Moreno descreve o «milagre económico chileno», baseado nas reformas implementadas pelos «Chicago Boys», e a exportação para outros países. Depois da sua chegada ao poder, Pinochet levou a efeito um movimento de reforma económica – que ficaria conhecido como «neoliberalismo» – cimentado na abertura da economia, na privatização de empresas estatais e num menor controlo governamental sobre a actividade privada. Há quem afirme que o nascimento de uma sociedade livre regida pelo mercado requer um regime autoritário. No entanto, foram tanto a implantação do modelo de mercado livre como o regresso à democracia os elementos que fizeram do Chile um modelo de equilíbrio a nível mundial. Com efeito, este país, submetido aos vaivéns das crises internacionais, foi capaz de continuar a crescer mesmo em épocas difíceis.

No seu artigo, Manuel Suárez-Barraza e Juan Ramis-Pujol apresentam a segunda parte[1] de uma investigação qualitativa que procura responder à seguinte pergunta: Como é conseguida a sustentabilidade da Melhoria Contínua de Processos (MCP) nas Administrações Públicas? Nesta ocasião, os autores respondem a outras interrogações: Que caminhos de sustentabilidade se detectam? Que potenciadores e inibidores influem na evolução dos diferentes caminhos de sustentabilidade? O artigo alude ao estudo de 4 autarquias espanholas, as quais – do mesmo modo que o resto das administrações públicas – não só enfrentam o desafio de iniciar processos de modernização, como, para além disso, devem sustentar essas reformas no tempo para que se repercutam positivamente na sua gestão quotidiana.

Por seu lado, Roberto Fernández Gago estuda o tema da Responsabilidade Social Empresarial (RSE). Avalia a relação entre a Estratégia Corporativa e aquela. Especificamente, demonstra em que medida a RSE constitui um elemento integrante da estratégia empresarial, tanto a nível corporativo como de negócio. O autor conclui que a visão estratégica da RSE é apoiada na ideia de que um comportamento socialmente responsável envolve, sem dúvida alguma, sacrifícios a curto prazo, mas também origina ganhos no longo prazo. Com base em dados relativos à consciência social dos cidadãos espanhóis e das empresas que operam em Espanha, demonstra os benefícios da incorporação da RSE na estratégia corporativa.

Finalmente, Rebeca Vidal questiona a natureza da iniciativa empresarial na América Latina. Depois de rever a relação entre indicadores da iniciativa empresarial (derivados do Global Entrepreneurship Monitor) e do contexto institucional para fazer negócios (derivados do World Econonomic Forum), estabelece tendências sobre o potencial aumento dos níveis de competitividade na região latino-americana. Analisa ainda os principais desafios que estes países enfrentam, para conseguirem maiores níveis de competitividade nas suas matrizes empresariais.