v. 2 n. 1 (2008)
Sobre este número
Carta do Editor Chefe

Bem-vindos ao segundo número da Revista Globalização, Competitividade e Governabilidade na Região Ibero-americana!

Definitivamente, a situação mundial actual confirma o impacto dos temas escolhidos pela nossa Revista na Região Ibero-americana. Por um lado, a globalização faz-se sentir pela importância que têm os tratados de comércio livre (TCL) na região. Embora já tenha sido aprovado o TCL entre os Estados Unidos e o Peru, continuam pendentes os da Colômbia e Panamá. Os temas relacionados com a competitividade tornam-se patentes face à turbulência financeira global. Em finais de Janeiro, reuniram-se em Davos, na Suíça, empresários, governantes e académicos em torno do Fórum Económico Mundial, organização que, através de relatórios como o Ranking de Competitividade, tem grande influência na orientação dos investimentos e capitais em todo o mundo. Naturalmente, o tema central foi o modo de enfrentar os efeitos perversos da crise do mercado financeiro nos Estados Unidos e evitar ou minimizar o contágio noutras economias. Neste sentido, embora a América Latina tenha mostrado o seu melhor desempenho nas últimas três décadas (crescendo a uma taxa média de 5%), começa a sentir o impacto da desaceleração da economia norte-americana. Após um ano exuberante nas bolsas, os mercados financeiros latino-americanos não conseguiram escapar ao contágio mundial e, finalmente, as bolsas da região caíram estrepitosamente. Finalmente, as eleições nos Estados Unidos e a recente notícia sobre a renúncia de Fidel Castro levam a reflectir sobre a relevância da governabilidade.

Este segundo fascículo conta com oito artigos muito diversos. No primeiro, Bernardo Kosacoff e Andrés López discutem o impacto da inserção da América Latina no novo cenário global, particularmente através das chamadas Cadeias Globais de Valor (CGV). Concluem que a América Latina participa pouco, e não da melhor maneira nas mesmas. Em sua opinião, integrar uma CGV não é, a priori, um aspecto positivo do ponto de vista da competitividade a longo prazo das empresas, nem das perspectivas de desenvolvimento económico de um país, a menos que seja acompanhada de um conjunto de outros factores. Apesar de mencionar alguns casos de sucesso, são poucos os países que intervêm nessas cadeias, e fazem-no nos escalões de menor valor acrescentado. A juntar ao baixo nível de integração nacional, isso debilita os efeitos distributivos e os spillovers (derrames) sobre as economias internas e, consequentemente, os seus impactos sobre o desenvolvimento são mais difusos.

No segundo artigo, Andrés Oppenheimer apresenta uma adaptação do seu recente livro «Saving the Americas: The dangerous decline of Latin América, and what the U.S. must do» (Random House, 2007). Com o seu estilo característico, números interessantes e argumentos baseados em entrevistas, Oppenheimer conclui que a América Latina cresceu quase exclusivamente devido a factores externos, tais como o impulso das economias mundiais e o preço das commodities. Não obstante, esses factores não são permanentes. Enquanto o pragmatismo e a obsessão pelo futuro determinam as decisões dos países asiáticos, a América Latina continua marcada pela ideologia e pelo apego ao passado. Durante a sua investigação, o autor viajou pela China, Índia, Polónia, República Checa, Irlanda e por mais de uma dezena de países latino-americanos, procurando compreender por que razão alguns países crescem e reduzem a pobreza mais depressa que outros. Face a outras regiões emergentes (Ásia, Europa Oriental e até África), a América Latina foi ficando para trás. Uma nota optimista encerra o artigo: embora reste muito por fazer, a região pode oferecer uma grande surpresa se alcançar a estabilidade económica e política dentro de um ambiente de democracia.

Seguidamente, Hilda Ochoa-Brillembourg expõe cinco recomendações sobre o papel que devem assumir as Instituições Financeiras Internacionais (IFI), como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Inter-Americano de Desenvolvimento, para reduzir as crescentes disparidades no que se refere ao rendimento e acesso aos mercados de capitais por parte dos mais pobres. Em sua opinião, as IFIs devem separar as suas funções de intermediação financeira das suas actividades de investigação e assim oferecer acções específicas em ambas. A referida separação permitiria a estas instituições uma gestão mais efectiva das suas fontes de financiamento e o cumprimento dos seus objectivos operacionais.

No quarto artigo, Josep Colomer alude à diferença entre Estado e Império. Após a análise da literatura, conclui que as ciências políticas beneficiariam com uma categorização mais diversificada de estruturas de governo ao distinguir entre impérios, estados e comunidades quando se trata de estudar temas tradicionais como instituições políticas, determinação de agendas públicas, votações e eleições, o funcionamento de assembleias e conselhos, política externa, relações internacionais e organizações internacionais. De acordo com a sua definição, o mundo actual compreende cinco grandes e poderosos impérios: Estados Unidos, China, Europa, Japão e Rússia. Estas cinco unidades políticas representam 40 por cento da população mundial e 80 por cento da produção. Outras unidades podem ser consideradas do tipo imperial pelo seu tamanho e variedade da respectiva população. Entre estas encontra-se o Brasil.

O quinto artigo, «La Internacionalización de la Democracia en el Sistema Interamericano», de Beatriz Ramacciotti, apresenta, de maneira detalhada, documentada e crítica, a evolução da protecção da democracia no plano internacional, relacionando-a com a globalização e com o desenvolvimento tecnológico das últimas décadas. A análise acentua as bases do paradigma democrático, cuja crescente consolidação e internacionalização a todos os níveis, e em quase todas as sociedades do mundo, é uma realidade tangível. Por outro lado, é incontestável que, tanto na Europa como na América Latina, os governos eleitos democraticamente são a regra e não a excepção.

No sexto artigo, Manuel Suárez-Barraza e Juan Ramis-Pujol fazem referência aos conceitos de Melhoria Contínua de Processos (MCP) na Administração Pública e com base na investigação qualitativa de quatro Municípios espanhóis. Os autores procuram detectar os elementos potenciadores e inibidores que afectam o desenrolar das etapas evolutivas da MCP. Tradicionalmente, os estudos sobre MCP concentraram-se em organizações de manufactura do sector privado. Este artigo apresenta uma primeira tentativa para estruturar a aplicação desses conceitos ao sector público.

No sétimo artigo, Daniel Correa Sabat reflecte acerca dos padrões geopolíticos e geo-económicos que determinam a globalização do cobre na América Latina e no mundo. A partir do exemplo do cobre, o autor destaca o desafio que significa para a América Latina a promoção do investimento estrangeiro e a desregulação do mercado como meios para alcançar uma maior integração da região no mercado mundial e aproveitar melhor as vantagens da globalização. Para além de um relato histórico do carácter estratégico do cobre na América Latina e no mundo, o artigo faz referência a reservas e países produtores, mercados mundiais, principais empresas produtoras, globalização da produção, comércio internacional, mercados financeiros e, por último, à globalização do comércio do cobre.

Finalmente, no oitavo artigo, Francesco Sandulli avalia as estratégias de filantropia corporativa global através do caso das empresas espanholas. As empresas analisam os investimentos sociais corporativos da mesma maneira que o fazem em relação aos investimentos financeiros corporativos. Utilizando como amostra as empresas cotadas na bolsa de valores de Madrid, foram desenvolvidos modelos estatísticos rigorosos para validar diferentes hipóteses de comportamento. O autor sustenta que as empresas com uma reputação corporativa reconhecida a nível global são mais propensas a seguir uma estratégia de acção social padronizada. Por outro lado, as empresas tendem a alinhar a sua estratégia de acção social com a respectiva estratégia competitiva internacional. As características próprias de cada país afectam a decisão de internacionalizar ou não a acção social mas, uma vez que a empresa decide internacionalizá-la, as especificidades de cada país não influem (estatisticamente falando) sobre o tipo de estratégia de internacionalização da acção social.

COMPETITIVIDAD LOCAL Y GLOBAL, Y PRODUCTIVIDAD E INNOVACIÓN TECNOLÓGICA

Bernardo Kosakoff, Andrés López
América Latina e as Cadeias Globais de Valor: Debilidades e potencialidades .
PDF (Espanhol)
Andrés Oppenheimer
O perigoso declínio da América Latina .
PDF (Espanhol)

RESPONSABILIDAD SOCIAL CORPORATIVA: INNOVACIÓN SOCIAL Y CREACIÓN DE EMPRESAS

Francesco D. Sandulli
Estratégias de filantropia corporativa global: O caso das empresas espanholas na América Latina .
PDF (Espanhol)